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CANNES é mais arte que show

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O festival de Cannes tem muito mais prestígio artístico do que o Oscar, considerado um prêmio (e uma festa) cafona.

Em 1962, a italiana Sophia Loren ganhou a Palma de Ouro de Melhor Atriz no papel da camponesa que enfrenta os horrores da Segunda Guerra

Termina no próximo domingo, 28, o Festival de Cannes edição deste ano, 2017, cujo cartaz homenageia a atriz italiana Claudia Cardinale, de clássicos como “Rocco e seus Irmãos”, “O Leopardo” (ambos de Luchino Visconti), “Era Uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone, “O Belo Antonio”, de Mauro Bolognini e tantos outros sucessos do consagrado cinema europeu dos bons tempos. 

Mas Claudia não pisou na Croisette (o calçadão que margeia a praia e onde fica a sede oficial do evento) este ano. A estrela máxima da festa nesta edição é a australiana Nicole Kidman, com quatro produções em exibição, duas delas na competição oficial. Perto dos 50 anos, Kidman, que já ganhou um Oscar pela sua performance da romancista Virginia Wolff em “As Horas” (e foi indicada outras três vezes ao prêmio de Melhor Atriz) arrasou em sua entrada triunfal no festival. “Sinto-me renovada”, teria exclamado a estrela, sob o espocar de milhares de flashes de paparazzi do mundo todo e o brilho dos holofotes, no tapete vermelho que leva ao salão de exibição dos filmes inscritos.  

O festival de Cannes tem muito mais prestígio artístico do que o Oscar, considerado um prêmio (e uma festa) cafona. Sua seleção anual de filmes leva sempre em conta o talento e coragem de diretores muitas vezes na contra-mão do mercado. Hollywood, por sua vez, não raro acaba privilegiando as bilheterias, em produções de pouca expressão que na maioria das vezes passa longe daquilo que convencionou-se chamar de Arte (e das quais o Cinema verdadeiro seria a Sétima). Enfim, Europa é Europa, com toda sua história e peso cultural e América é América, ainda engatinhando em tudo que se refere à Cultura e bom gosto.  

O Brasil sempre se deu bem em Cannes, mesmo não contando com nenhum filme em competição este ano. No longínquo 1953, “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, levou os prêmios de Melhor Filme de Aventuras e Melhor Trilha Sonora (com o clássico “Mulher Rendeira”). Nove anos depois, em 1962, o mundo das Artes quedou-se boquiaberto quando o diretor brasileiro Anselmo Duarte abocanhou a Palma de Ouro (Melhor Filme), prêmio máximo do festival com a transposição para a telona da peça de Dias Gomes, “O Pagador de Promessas”. Foi a primeira (e até agora) única vez em que o Brasil ganhou a Palma de melhor filme no festival. O sucesso em Cannes ainda alavancou a carreira da atriz Norma Bengell (1935/2013), que faz a prostituta no texto de Gomes. Norma mudou-se de mala e cuia para a Europa, onde fez carreira razoável em produções baratas. Em 2004, o diretor Walter Salles, com seu “Diários de Motocicleta”, narrando a mítica viagem de um Che Guevara ainda jovem pela América do Sul ganhou dois prêmios em Cannes; o mesmo Waltinho, anos depois, em 2008, ainda veria a atriz principal de seu longa “Linha de Passe”, Sandra Corveloni, levar a Palma de Ouro de Melhor Atriz por sua comovente atuação como a mãe favelada de três pivetes. Outra grande surpresa de Cannes, já que na época Corveloni não passava de uma ilustre desconhecida, depois passou até a ser escalada para a novela das 9 da Globo. 

Mas antes dela, ainda bem novinha, em 1986, a atriz Fernanda Torres já havia acertado no alvo do mesmo prêmio com o intenso “Eu Sei que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor.

Cannes também é louquinho por um escândalo. Atrizes em início de carreira e starlets oportunistas costumam banhar-se peladas em plena Croisette, levando os paparazzi à loucura; ano passado a superstar Julia Roberts arrancou os saltos agulhas e subiu o (longo) tapete vermelho descalça, provocando verdadeiro frisson entre os jornalistas e fotógrafos (o protocolo oficial do festival proíbe esse tipo de liberdades). Ainda no ano passado, equipe e elenco do longa nacional “Aquarius” (entre eles a multistar Sônia Braga) protestou no topo do tapete vermelho com cartazes pedindo a renúncia do presidente Michel Temer, naquele que foi um grande rebu político internacional. E não é que todos eles estavam certos?

Em 2011, o diretor dinamarquês Lars Von Trier, após a exibição de seu filme que concorria à Palma de Ouro, o belíssimo “Melancolia”, em coletiva aos repórteres do mundo todo, deixou escapar, entre outras, que “entendia Hitler e seus propósitos”. Não precisou mais nada: desde então, foi banido de Cannes, seus filmes não entram mais na seleção oficial e ainda ficou com a pecha de “persona non grata” ao festival.

Em 1962, a italiana Sophia Loren ganhou a Palma de Ouro de Melhor Atriz no papel da camponesa que enfrenta os horrores da Segunda Guerra junto com a filha no clássico “La Ciocciara” (Duas Mulheres- Two Women) de Vitorio de Sicca. No mesmo ano, dois meses antes, já havia recebido o Oscar de Melhor Atriz pelo mesmo papel. Caso único em Cannes e Hollywood, la Loren continua reinando absoluta, com o Oscar em uma mão e a Palma de Ouro na outra. 

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos “Insânia” (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado “Alana e a Lâmpada Mágica”. Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.