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Em Itaporanga…

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Abadia de Itaporanga, de todas as posições algo maajestoso

Abadia de Itaporanga, de todas as posições algo maajestoso

Me lembro perfeitamente da primeira vez que pisei em Itaporanga. Já tinha ouvido falar muito, pois naquela época vivia passeando em Itaí. Mas não me interessava muito não. Por que? Nem me perguntem, nem eu sei. Achava tão distante quanto os anéis de Saturno, e sem o brilho destes.

Daí, pela voltas que o mundo dá, meus amigos de Itaí mudaram-se imaginem prá onde? Bem, Itaporanga, claro! Itaí então ficou na lembrança e lá me fui, prás fronteiras do Paranazão, MP3 nos ouvidos, ray-ban no rosto, mochila nos ombros e alguma expectativa. Todas correspondidas, felizmente: de lá prá cá (isso já fazem alguns anos) vou, sempre que posso, prá Cidade da Abadia. Já pensei, inclusive em mudar-me para lá. E ainda penso, devo admitir.

De início, Itaporanga pegou-me pela total ausência de gente em suas ruas, principalmente durante o dia. Estranhei um pouco o fato, mas depois fui vendo que não era bem assim não. Como costumo hospedar-me no Ipiranga (o hotel do centro), perto da Rodoviária, comecei a notar que o movimento por lá era (e é) o de um verdadeiro enxame. Muita gente indo e vindo, dos cafundós do Paraná e outras cidades, as quais, de início, só conhecia o nome, na famosa rota das ITAS: Itaporanga, Itaberá, Itapeva, Itararé e Itapetininga. Daí fui conhecendo todas (principalmente Itararé, que adoro), mas confesso que nunca “cruzei a fronteira” chegando até Sengés (sem jazz), a cidade de quem não gosta de jazz, logo ali, na borda do Paranazão vermelho.

Abadia de Itaporanga

Nas muitas idas e vindas prá Itaporanga, aproveitei para fotografar a Abadia (claro!), de todos os ângulos possíveis e imagináveis, fotos que guardo numa pasta virtual que só cresce. Já me espantei e maravilhei com o defunto deitado no horizonte na serra do Morto (lá longe) e certa vez, por gentileza de um dos padres da Abadia, até pude visitar A Casa por dentro, adentrando até mesmo os aposentos particulares do Abade Mór, de uma simplicidade espartana e com uma vista espetacular. Bem, é claro que o monge me mostrou o que podia mostrar, o que já foi muito, penso eu, visto que a Aninha, que estava comigo nessa tal visita, nem passou da recepção: às mulheres era (não sei se ainda é) vedado o acesso à certas dependências da colossal Abadia.

Abadia de Itaporanga

Estive em Itaporanga no Natal, comemorando a data familiar com meus amigos queridos. Tinha ficado 2 anos sem ir, e espantei-me com a dicotomia da cidade, que considerei estar numa onda de progresso visível: vários estabelecimentos novos no comércio, todos muito agradáveis e de um bom gosto extremo. Tem lugares por lá que nem parece coisa de cidade pequena, tamanho o grau de investimento e a preocupação em fazer a coisa certa. Itaporanga cresce, é inegável.

Ao mesmo tempo, a “velha” Itaporanga recusa-se a morrer: aquele ar decadente de cidade poeirenta e atrasada ainda faz-se notar em vários setores: é como se metade da cidade fosse movida a trem-bala e a outra metade a carroça. Não sei se essa analogia é adequada, mas eu sinto assim: o modernismo e eficiência da Padaria e Café Viena, da loja de conveniências do Posto BR, dos restaurantes Pimenta Malagueta e Delicious Grill, do Palácio do Sorvete convivem, pacificamente, com as saudades e lembranças de antanho: às vezes, uma carroça ou um cavaleiro das antigas cruzam as ruas, num look vintage de uma cidade que só se moderniza.

Dividida ou não, vintage ou futurista, com suas discrepâncias deliciosas, Itaporanga continua sendo meu sonho de consumo, símbolo de tranquilidade, paz, porto seguro, ar respirável e qualidade de vida. Além de ser plasticamente linda, o que ajuda bastante também.

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos “Insânia” (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado “Alana e a Lâmpada Mágica”. Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.