Pelos palcos da vida

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Estreia nacional de “Hair”, musical de 1969

Nossa, vendo agora o título desse texto assim exposto me lembrei da canção do Milionário & Zé Rico, “Estrada da Vida” (… nesta longa estrada da vida …) um dos clássicos da música sertaneja. Nada contra. Muito pelo contrário: considero os clássicos, de qualquer categoria, intocáveis, acima do Bem e do Mal. Mais nada sobre eles deve ser dito e ponto final.

Mas aqui o papo é outro e a estrada conduz ao Teatro com T maiúsculo. Contar-lhes-ei uma historinha que ajudou a moldar minha vida, meus gostos pessoais e minha personalidade, possibilitando, assim, que eu, décadas depois, pudesse estar aqui, falando de sapos, lagartos e palcos mil.

ROTEIRO BÁSICO – Entre meados das décadas de 1970 e 1980 do século passado, quando morava em São Paulo e lecionava em São Bernardo do Campo e Diadema, na Grande SP, eu e o Rono (Romualdo Dias Vieira, pirajuense, 1945/1989, morto pela Aids) e mais alguns tresloucados nos fazíamos passar como integrantes de grupo de teatro amador da periferia da Grande Capital: Perus, Itaquaquecetuba, Parelheiros, Jardim Miriam ou qualquer coisa assim. Tínhamos descoberto, não me perguntem como, que todas as grandes peças em cartaz na época tinham uma cota de ingressos gratuitos reservados a esses grupos iniciantes da periferia. Então, por que pagar, não é mesmo, se podíamos sempre mentir? E assim foi feito, por anos a fio, sem que nunca ninguém nos desmascarasse.

Grandes histórias, grandes encontros e grandes gafes se originaram daí. Desnecessário dizer que, com a ajuda desse artifício matreiro, eu e Rono, durante uma década ou mais, conseguimos assistir a quase todas as peças e musicais que passaram pelos palcos paulistas fazendo história. É por isso que eu, até hoje, me recuso a assistir esses espetáculos trazidos até aqui e comandados por grupos menores desconhecidos. Pra quem viu Marília Pera em cena em “Apareceu a Margarida” (1973, de Roberto Athayde) ou a família Goulart todinha no palco (Nicete, Barbara e Eleonora Bruno mais Beth Goulart) em “O efeito dos raios-gama nas margaridas do campo”, de 1974, dirigidas por Antonio Abujamra na tradução de Barbara Heliodora para o texto de Paul Zindel fica difícil ter saco pra ir ver a Benedita Moraes do Circuito Cultural Paulista naquela peça que ou é um standup ou um besteirol, não é? Não vou mesmo!

Eu não estava na plateia do Teatro Oficina em 1967 quando os cães-de-guerra da ditadura militar invadiram o local em São Paulo para tentar impedir a encenação de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, com a direção de Zé Celso Martínez Correa, depois disso preso, torturado e exilado. Nem quando os mesmos psicopatas de farda verde-oliva, um ano depois, adentraram o TUCA (Teatro da Universidade Católica), em São Paulo, para bagunçar a exibição de “Roda Viva”, de Chico Buarque, distribuindo porradas, botinadas, cassetetes e espalhando o pânico geral. É, eu ainda não estava lá, mas  Mah Luly (Hamilton Maluly, autor teatral pirajuense, 1940/2013) que anos depois presentearia os palcos paulistas com os sucessos “Adeus, Geralda” e “Bye, Bye, Pororoca” me contou tudo. Mah Luly, sortudo, também estava na estreia nacional de “Hair”, musical de 1969 que marcou época por contar no elenco com os então iniciantes Sônia Braga, Altair Lima, Rosa Maria e Aracy Balabanian. “Hair”, além de ter em sua trilha sonora o hit “Aquarius/Let the sunshine in” ainda tirava a roupa de seu elenco, botando todo mundo nu no palco. Maravilha.

Mas eu estava, sim, na plateia quando escavaram todo o Ruth Escobar e transformaram o palco numa imensa torre metálica de 30 metros chão abaixo, com os atores (Raul Cortez e Célia Helena, entre outros) num sobe-e-desce sem fim, na montagem histórica de “O Balcão” de Jean Genet, onde o público se sentava em volta do buraco colossal. Ou quando a direção transformou o palco todo num imenso desmanche, na poderosa “Cemitério de Automóveis”, de Arrabal (1968).

Regina Duarte, em início de carreira, fez “Blackout” com Eva Wilma e ganhou prêmio da crítica. Depois foi aclamada por sua recriação da beata Branca Dias, no épico “O Santo Inquérito”, de Dias Gomes, em 1978. Nunca conseguimos, nem eu nem Rono nem os outros burlar a vigilância do produtor carioca Carlos Imperial, que sempre nos negou ingressos para um grande musical seu e ainda nos desmascarou, ameaçando chamar a PM e nos chamando de “vagabundos” aos altos brados no saguão de entrada do teatro. Momentos gratificantes com Denis Carvalho – uma simpatia – tomando uma média com pão e manteiga num bar perto do teatro, que nos recebeu com cordialidade e ainda nos deu um monte de entradas pra gente ver “Os Rapazes da Banda” (The Boys in the Band, de Mart Crowley,1968), que já tínhamos assistido na versão do Raul Cortez no Teatro Cacilda Becker em 1972. Ou momento íntimo com Chico Cuoco, a simpatia em pessoa, que nos recebeu no próprio camarim, enquanto se maquiava para entrar em cena em “O Assalto”, do Zé Vicente, no Teatro Paiol: nos deu um monte de ingressos e ainda nos incentivou a prosseguir carreira no palco. Um doce de pessoa. Norma Bengell, fantástica, ficava nua em pelo no palco em “Cordélia Brasil”, 1968, de Antonio Bivar, no teatro Cacilda Becker, mas ninguém  ligava, já que os atributos de seu parceiro em cena, Marcelo Picchi, sobrepujavam em muito os seus, já exibidos a todo mundo no clássico longa-metragem “Os Cafajestes” (1962) de Ruy Guerra. E em 1981, orgulhosos, fomos todos prestigiar o pirajuense como nós Marcio Aurelio, que se consagrava como diretor/encenador no vitorioso texto de Alcides Nogueira, “Lua de Cetim”, que arrebatou 16 prêmios da crítica da época.    

ENTRE-ATOS: Elis descia de trapézio em “Falso Brilhante” (1975/1977) cantava “Fascinação” e o mundo vinha abaixo e eu e Rono chorávamos copiosamente; Bethânia afirmava que limpava num pano de prato as mãos sujas do sangue das canções e nós, míseros mortais, nos jogávamos aos seus pés no show-musical “Drama” (1972/1973).

GRAN FINALE – Sexta-feira, 22 horas, Teatro Ruth Escobar, Rua dos Ingleses, Higienópolis, SP: debaixo de chuva, na entrada, eu e Rono esperávamos a chegada da grande Ruth Escobar (1935/2008), dona do teatro que leva seu nome e a única que – de acordo com a portaria – seria capaz de nos conceder dois míseros ingressos, para uma peça já iniciada no mínimo há meia hora. Uma limousine para na garoa e a grande estrela dos palcos desce sem ao menos um olhar para as duas figuras ensopadas no pórtico. Ruth adentra o imenso saguão de mármore branco e começa a subir a escadaria dupla, espanando a garoa dos ombros envoltos em vison. Num ímpeto, Rono a segue saguão adentro e exclama, em alto e bom som, com eco: “RUTH!!!” – A atriz se volta lentamente, lá em cima, e o encara, lá em baixo, sem dar mostras de reconhecimento. “Ruth!” insiste o amigo. “Não está me reconhecendo, querida? Romualdo, do Grupo de Teatro Amador de Campo Limpo!” – A atriz, aturdida e pega de surpresa, pensa, reflete e depois de um segundo abre os braços e grita: “Claro! Romualdo, querido! Se achegue para um beijo”, enquanto o farsante sobe os degraus e se lança nos braços abertos da Diva.

CAI O PANO – 

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos “Insânia” (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado “Alana e a Lâmpada Mágica”. Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.