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Sargento Pimenta chega aos 50

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Sempre os meninos de Londres

Quem viveu tudo isso é muito sortudo

Há 50 anos atrás de hoje (primeiro de junho de 1967, para ser mais exato), o mundo parava extasiado para ouvir, discutir, pensar e remoer aquilo que meio século depois (ou antes) seria considerada uma das obras de Arte mais significativas do Século XX: os Beatles lançavam seu oitavo álbum de estúdio, o mítico “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” (A Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pepper). Nem a bomba atômica lançada pelos americanos sobre Hiroxima em agosto de 1945 faria tanto estrago.    

A revista Time, de cara, definiu-o como “uma revolução histórica no progresso da música”. Gravado nos estúdios da EMI e Regent Sound, em Londres, no período de 24/11/1966 a 21/4/1067, a histórica peça levou apenas 39 minutos de duração para revolucionar a música, as Artes e o mundo em geral. Ficou 27 semanas em Primeiro Lugar entre os álbuns Mais Vendidos da Inglaterra e 15 semanas nos EUA; levou 4 Grammys em 1968, incluindo Melhor Álbum, Melhor Capa e Melhor Disco de Rock, sendo o primeiro disco de rock na história a ganhar tal troféu.

A revista Rolling Stone de 2003 incluiu a bolacha no TOPO dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos. Todas as listas compiladas até hoje, que costumam listar os Melhores Discos de Todos os Tempos, colocam o LP dos Beatles no topo, às vezes alternando com “Revolver” (1966) ou “Rubber Soul” (1965), também deles. Vendeu até hoje cerca de 30 milhões de cópias no mundo todo e nunca saiu do catálogo da gravadora. Nos EUA, ficou na lista dos Mais Vendidos da revista Billboard por cerca de 175 semanas não-consecutivas. Reza a lenda que o produtor dos Beatles, o notório George Martin (sempre chamado de “Quinto Beatle”) gravou “Sgt. Pepper´s” numa mesa de mixagem de 16 canais! Hoje – vejam só como a coisa andou para trás – usam-se 400 ou mais canais para gravar-se os abacaxis de Luan Santana ou Wesley Safadão, destinados ao esquecimento (ou ao lixo, melhor) um ano depois.

A capa do disco – um caso à parte – foi ideia de Paul Mc Cartney. Juntou-se, então, dezenas de celebridades moldadas em papelão ou cera com os Beatles no meio: entre os retratados estão atores, atrizes, atletas, esportistas, escritores e notoriedades policiais: as deusas sexuais e atrizes Diana Dors, Marlene Dietrich, Marilyn Monroe, os escritores Oscar Wilde, Edgar Allan Poe e Scott Fitzgerald, o lutador de boxe Muhamad Ali, a dupla cômica do cinema mudo O Gordo e o Magro, o Tarzan (também do cinema mudo) e vencedor das Olimpíadas (natação) Johnny Weissmuller, o cantor Bob Dylan, o assassino Charles Manson e até os “rivais” dos Beatles na época, os também ingleses Rolling Stones, lembrados numa faixa de “welcome” no canto direito da capa.

As extraordinárias e saudosistas “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”, respectivamente uma rua de Liverpool e um asilo de velhinhos da mesma cidade não entraram na edição final de “Sgt. Pepper´s” por pressão da gravadora, que resolveu lançá-las num single, com retumbante sucesso. Por mais que Rita Lee quisesse e fosse fã dos cabeludos, “Lovely Rita” não foi escrita para ela. Especula-se que a primeira faixa do Lado B do disco, a belíssima “She´s Leaving Home” (Ela Está Saindo de Casa) possa ter dado origem ao movimento hippie, quando todos os jovens do mundo saíram da casa dos pais, para transar, fumar maconha ou simplesmente viver suas vidas do jeito deles. Mc Cartney antecipou o futuro dos Beatles na simpática “Whem I´m Sixty Four” (Quando Eu Tiver 64 Anos”) mas errou feio: George e John jamais chegaram a atingir a idade da canção do disco, o primeiro fulminado por um câncer de cabeça e Lennon assassinado por Mark Chapman, na porta de sua casa, o edifício Dakota, no Central Park, em Nova Yorque, no distante ano de 1980.

“Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, pessoalmente, marca um rito de passagem para mim. No ano seguinte ao seu lançamento, eu me mudaria para a cidade de Fartura, para assumir meu primeiro cargo como professor no Estado, com os Beatles na mala. Em 1969, um ano depois, aconteceria o Festival de Woodstock, numa fazendinha perto de NY, nos Estados Unidos, reunindo 400 mil jovens debaixo de chuva na lama e um monte de rock stars no palco. Foi o chamado “Verão da Paz & Amor” e adivinhem qual era a trilha sonora dessa era mágica? O disco dos Beatles, “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, com Lucy luzindo magnífica no céu entre as estrelas e a gente finalmente sabendo quantos buracos são necessários para encher-se o Albert Hall (“A Day In The Life”, última faixa do Lado 1).

Em 1980, com os Beatles já separados há dez anos, Lennon é assassinado e O Sonho, definitivamente, acabou. Quem viveu tudo isso é muito sortudo, mas que passou depressa demais, ah, isso passou mesmo!

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos “Insânia” (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado “Alana e a Lâmpada Mágica”. Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.