De profundis

Por
Atualizado em

Sonhei que estava no inferno. De repente o chão se abriu e um buracão apareceu: tal como Alice na toca do coelho lá fui eu, aos trambolhões, para baixo. Para as profundezas.

Aterrisei em poeira fina feito talco. Pó negro. Vastas amplidões a perder de vista, mistura de Himalaia com As Terras Devastadas do King em A Torre Negra. Silêncio absoluto. E uma quentura que eu sentia nas solas dos pés. 

Caminhei pelo que pareceram horas, mas pode ter sido só um piscar de olhos. De repente, na encosta da montanha, como se fosse uma mina, vi uma entrada com uma placa de neon vermelha pulsando em cima: “Inferno: Entre Por Aqui”. Que baita clichê, pensei, entrando.

Quase me perdi no meio de tantos corredores, cruzamentos, túneis e desvios. Tudo muito escuro, com cheiro de peido velho misturado a queijo azedo e tochas nas paredes de pedra. Quente o tempo todo. Numa curva súbita, ouço uma algaravia semelhante a vozes. Não eram vozes humanas, entendam, mas pareciam. Mais como alguma coisa pré-gravada na minha cabeça em algum idioma alienígena. Mas eu entendia tudo. E ali, em frente a um pub caindo aos pedaços, avistei o que me pareceu ser um bando punk com elementos em diferentes estados de decomposição. Um deles se adiantou e pude ver que era: 1) Pepita – Minha amiga morta ao me ver abriu um sorriso medonho e se aproximou. Pude notar que em meio aos seus cabelos, em vida negros e cacheados, agora brotavam ninhadas de vermes gordos e peludos, que explodiam um após o outro, com um “ploft” nojento vertendo pus. Pepita arreganhou lábios comidos por ratos, abriu a boca desdentada despejando baratas e berrou “É hora de rock and roll, baby!” com um bafo de águas podres tão medonho que desmaiei imediatamente, até mesmo antes de parabenizá-la, dizendo que a morte lhe cai bem.

Quando dei por mim estava andando de novo, quando uma garra esquelética me puxou pelos ombros. Voltei-me e vi que era: 2) Lorna, ou o que restara dela. Enquanto viva, Lorna gabava-se muito de sua bela bunda, exibindo as nádegas a torto e a direito para qualquer um. Aqui, no Inferno, pouco ou nada restara dos glúteos siliconados da amiga morta.  A transexual-cadáver, desesperada, insistia em apontar para aquela massa putrefata e queimada de carne podre com silicone fumegante pingando, perguntando se sua bunda ainda estava bonita. Com raiva e medo, dei um chute na bunda infecta de Lorna e ela explodiu em mil       

partículas chamejantes, gargalhando, rogando pragas e me cobrindo de uma gosma quente e nojenta.

Procurando pela saída, acabei deparando com um demônio bastante simpático, que me disse chamar-se Belial: tinha um belo corpo coberto de escamas azuladas, pupilas na vertical, língua bifurcada, olhos escuros e chifres amarelados e nodosos. Asas negras, membranosas e duras feito couro assomavam de suas omoplatas e ele estava nu, mas fiquei com medo de encarar seu sexo e sentir-me irresistivelmente atraído pela coisa do Diabo, feito a Mia Farrow em O Bebê de Rosemary. Perguntei a ele se estava perto da Roda dos Pedófilos, onde homens de má índole que abusam sexualmente de criancinhas inocentes pagam suas penas por toda a Eternidade. Belial sorriu e disse que há muito tempo essa relíquia havia sido removida do Inferno, junto com o Poço das Trepadeiras, o Pêndulo dos Cornos, o Vira-Vira Gay e a Estaca das Bruxas. Lembrou que esses suplícios eram muito populares na época em que o poeta florentino Dante Alighieri escreveu sua “Divina Comédia”, onde uma das partes,  “Inferno”, era um lugar constantemente citado pela Inquisição Católica. “Atualmente”, confidenciou Belial, “com a crise mundial, Alastor, Abraxas e Azazel cuidam de tudo, sob a supervisão do Número 2, o temível Baphomet, sabe, aquele que tem os peitos caídos”, debochou a entidade, decerto com crises de ciúme do poder de Bapho. “O resto deixamos para as redes sociais na Internet, que funcionam melhor que essa arcana matriz aqui, que está mais para um parque de diversões macabro”, cochichou Belly (à essa altura, já éramos íntimos).

E, virando-se, me apontou, com a longa garra de um dedo ossudo, a saída do Inferno. No caminho até lá, ainda deparei com: 3) O Cantinho dos Barreiros no Inferno – passei bem rapidinho e felizmente não reconheci ninguém dos mortos recentes da família. Só algumas formas vagas, espectrais, desencarnadas há muito tempo, fantasmas. Uma delas, etérea e sorridente, gritou meu nome “Carlinhos!” tentando me puxar para a tumba com uma mão gelada e descarnada; achei que poderia ser a tataravó da tia Emerenciana de Botucatu, uma tal de dama Heloina, falecida há tempos imemoriais. Antes que outros Barreiros do Mal se manifestassem, joguei um carvão ardente em Heloina e a entidade imediatamente pegou fogo com um “psiffff”, consumindo-se numa labareda verde e fria. Vazei, pois se parente já é um saco em vida, imaginem no Inferno!   

Já bem perto do ponto de luz que anunciava a saída, uma criatura disforme chorava baixinho à beira do caminho. Aproximei-me, e para meu espanto total, era: 4) Tetéia Ramos Chagas, notória em vida por ser uma drogada, alcóolatra, sapatona e traficante. Observei que, de perto, Tetéia só tinha meio rosto e meio corpo, igual aqueles fantasmas de Piratas do Caribe. Contou-me que, sem nariz ou órgãos internos, era forçada a fumar maconha da melhor qualidade por toda a Eternidade sem poder desfrutar do sabor da cannabis e brisar com seus efeitos. “Estou sofrendo muito, amigo, me ajude”, choramingou Tetéia, enfiando um baseado na boca carcomida que logo saiu por um buraco na goela, com a brasa piscando. Abaixei-me para consolar a amiga defunta quando o Inferno espiralou para cima num vórtice de luz branca e eu acordei!   

 

Espalhe essa notícia

10 visualizações
Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos “Insânia” (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado “Alana e a Lâmpada Mágica”. Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.