Notre-Dame de Paris

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(com personagens criados por Victor Hugo)
(com personagens criados por Victor Hugo)

Examinou-se na folha de latão embaçada que lhe servia de espelho desde que viera morar ali. Seu reflexo mal aparecia na superfície acobreada, arranhada e ondulada pelas idas e vindas. Uma sombra alta, porém arcada, olhou-o de volta. Virou de costas, mas daí não se enxergava direito.

Com cuidado, apalpou o monte de carne disforme que se acumulava bem em cima da omoplata esquerda. Apertou mas não sentiu dor alguma. Apalpou mais, de cima a baixo. Está crescendo, pensou, ao mesmo tempo que um ódio súbito lhe toldava a visão, obscurecendo-lhe os sentidos. Chutou o espelho, que fez um barulho esquisito de gonzos, enquanto uma dor dilacerante no joelho e calcanhar direitos prostou-o no chão de tábuas largas corridas. Tentou não chorar porque, em sua imaginação, rapazes de 23 anos não são mais meninos e não choram. Enrodilhado no chão, em posição fetal (mas ele não sabia disso) enquanto a noite caía nas alturas, tentou não se lembrar que era um monstro. Que as pessoas riam dele, o apontavam com dedos acusadores e fugiam. Que as criancinhas, aterrorizadas, berravam frente à sua figura grotesca. Uma bile amarga subiu-lhe garganta acima mas em vez de vomitar a criatura dormiu. Talvez funcione assim com os corcundas.

Acordou bem cedo no dia seguinte, preocupado com os horários dos sinos. E eles eram dezenas, cada um com um nome, que ele mesmo lhes dera. Não havia torre na gigantesca catedral onde não existissem seus respectivos sinos, alguns deles maiores que um elefante. Ele sabia, pois já tinha visto um elefante quando morava no circo. Mastigando um naco de pão amanhecido meio roído pelos ratos e engolindo uma xícara de chá verde fumegante, pulou na corda de Dionísio e se balançou. Depois foi a vez de Varanas, em seguida Apolo e depois Criseido. Feito um macaco bem adestrado, o corcunda pulava de corda em corda, de sino em sino, enquanto uma doce melodia formada pelos sons harmonizados das peças em cobre ou ferro fundido espalhava-se acima da névoa matutina de Paris.            

No intervalo entre a primeira grande badalada (seis horas) e a segunda (dez) pôs-se a matutar, enquanto pegava uma vassoura que já vira dias melhores para varrer seus aposentos e o resto das duas torres principais. Com ela também espantava os pombos, que moravam nas frestas e viviam cagando em tudo. Estava ali desde que tinha 10 anos, quando o Circo La Fontaine o abandonara à beira da estrada para morrer de fome e os homens do Cardeal o encontraram, levando-o para Paris. Se não fosse o Cardeal Clemente de Abousson não saberia como teria sido sua vida.

O bom religioso o acolhera, dera-lhe de comer e vestir e ainda lhe ensinara o ofício de sineiro, que ele praticava com orgulho. Toda vez que o santo homem dignava-se subir até as torres, corria, ajoelhava-se e beijava suas mãos nodosas, cheias daquelas pintas do tempo, que sua mãe costumava chamar de “les fleurs du mort”. Estranho. Fazia tempo que não via o Cardeal. Meses, na verdade. Será que tinha morrido? Um estremecimento percorreu-lhe o corpo, acumulando-se na imensa corcunda que lhe pesava nas costas. Então, triste com o rumo dos próprios pensamentos ajoelhou-se e rezou à Virgem, para que protegesse o Cardeal e lhe tirasse a corcunda das costas, deixando-o bonito.

Cochilou um pouco à tarde e preparava-se para a sessão das 3 horas quando um alvoroço lá em baixo, na praça, chamou-lhe a atenção. Largou a corda do sino Clóves e desceu correndo as escadarias de madeira, para conseguir uma visão melhor do que acontecia. Vinte metros abaixo, a guarda do rei implicava com um bando de ciganos. Ele gostava dos ciganos. No circo, sempre o trataram com carinho. Olhou bem. Os soldados discutiam com uma moça de roupa verde de couro, cabelos vermelhos, que segurava uma cabra pelos chifres. Os outros ciganos, cinco pelo que ele contou, amedrontados, estavam mais atrás, esperando. Esmeralda era o nome dela. É isso. Ele já tinha visto a cigana por aí, dançando na praça enquanto seus conterrâneos tocavam instrumentos de cordas e percussão. 

E a cabra, que usava fitas nos cornos e sininhos no pescoço peludo dançava junto com ela. Agora ele já sabia a razão da discussão que ocorria abaixo. Certamente a guarda do rei estava a prendê-la, como bruxa. Assustada, Esmeralda batia com um pandeiro nos ombros do soldado que tentava agarrá-la, enquanto os outros se divertiam, rindo. A cabra, pressentindo o perigo, berrava alto. 

Malditos. O corcunda odiava os soldados mais do que odiava Madame Solangy, a dona do circo que o trancava junto com os porcos e galinhas.

Quando Esmeralda gritou mais alto, no momento em que os guardas a detinham e procuravam amarrar suas mãos atrás, Quasímodo enlaçou a corda de Cédric, o sino mais baixo da torre esquerda e saltou para a praça, vinte metros abaixo da Catedral de Notre-Dame de Paris.

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos “Insânia” (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado “Alana e a Lâmpada Mágica”. Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.