O Bacalhau da Veveta

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Ivete Sangalo, sempre simpática e tratada carinhosamente por seus fãs de “Veveta”
Ivete Sangalo, sempre simpática e tratada carinhosamente por seus fãs de “Veveta”Assisti semana passada na Globo o musical em homenagem aos 100 anos de nascimento do apresentador  Abelardo Barbosa, mais conhecido como Chacrinha. Ele nasceu no dia 30 de setembro de 1917 em Surubim, PE e morreu em 30 de junho de 1988, aos 70 anos, no Rio, de infarto. O “Velho Guerreiro” padecia ainda de um câncer de pulmão.O apresentador mais escrachado da TV brasileira passou por quase todas as emissoras em sua longa carreira: 1956, TV Tupi: Discoteca do Chacrinha – 1967, Globo: Buzina (calouros) e Discoteca – 1978, Band: Discoteca e 1982, Globo novamente: Cassino do Chacrinha, todo sábado à tarde.

Há que se lembrar que o Brasil de Chacrinha era outro àquela época. A maior parte de sua carreira ocorreu sob a sombra dos Anos de Chumbo, a ditadura militar, para a qual ele parecia pouco se lixar. Esse era um país pobre, recém saído da miséria da troca de capitais, sem luxo ou glamour, engatinhando devagar rumo aos shoppings, aos condomínios fechados dos ricos, às highways com carros nacionais e aos super-políticos bandidos. Esse estado de coisas, pouco louvável, acabava se refletindo nas plateias do Velho Guerreiro: gente feia, desdentada, descabelada e periférica, que se agarrava a um bacalhau atirado como se daquilo dependesse sua sobrevivência. Desprovida de qualquer graça ou sofisticação, a plateia de Abelardo, sempre a um passo da miséria, refletia a personalidade caótica do apresentador, que despachava calouros sem a menor cerimônia e debochava de todos que se apresentavam. Nada de boas maneiras: aos pobres e miseráveis, nada como uma boa buzinada na cara para perder a mania de ser cantor. E, pasmem, ninguém nunca morreu por conta dessas hilárias grosserias com o próximo.  

Impensável o Cassino do Chacrinha hoje na Globo, emissora com  pretensos ares de finesse e grandeza, copiados das redes estrangeiras, desde que, nos longínquos Anos 80, começou a anunciar o seu questionável “padrão Globo de qualidade”. Atualmente, nesses tempos chatos do politicamente-correto, o Velho Guerreiro estaria, com certeza, semanalmente denunciado por violar qualquer um desses novos cânones criados para “proteger” as supostas minorias ou as aberrações que o gênero humano sempre pariu e continuará parindo.

Desde o silêncio de “Terezinha!”  nunca mais a TV brasileira foi desbocada, suja ou malvada. O “padrão Globo de qualidade” expurgou Chacrinha e seu circo de horrores e ainda Dercy Gonçalves e seus palavrões de baixo calão, considerados ofensivos demais para o novo status da rede.

Algumas das insuperáveis chacretes (dançarinas que faziam a figuração do programa) criaram vida própria e alçaram voo rumo a carreiras breves e modestas no show business nacional. Um documentário sobre elas, lançado em vídeo há uns 20 anos, constatava que a maioria, na época, se entregava à prostituição, saindo até com alguns dos mais ilustres convidados do Velho. Vi o vídeo e morri de rir quando a tal Índia Amazonense, uma das chacretes mais badaladas, reconhecia, já velha e acabada, que o grande problema da vida dela foram “os homens que não prestavam”. Hilário. Bem vinda ao clube, amiga.            

Bem, o júri da homenagem não chegou nem aos pés de alguns júris clássicos de Chacrinha. Os insossos Luciano Huck/Angélica, Glória Maria (sempre insuportável), Regina Casé (eternamente chata), Ana Maria Braga (entrou muda e saiu calada) não são páreo para um Pedro de Lara, uma Aracy de Almeida ou uma Elke Maravilha. Destaque para o ator Stepan Nercessian, da série “Sob Pressão”, perfeito na pele do Velho Guerreiro, André Marques, sempre correto e bonitinho e a deslumbrante Fernanda Lima, os três bem no clima das antigas Discotecas ou Cassinos dos Anos 80.

O ponto alto da noite ficou com a cantora baiana Ivete Sangalo, sempre simpática e tratada carinhosamente por seus fãs de “Veveta”, que confessou em público que o grande sonho de sua vida, desde menina, quando via Chacrinha na TV era ouvir o apresentador berrar: “Quem quer comer o bacalhau da Ivete?” E – cuidado com o que você deseja – lá se foi o Chacrinha fake perguntar para o Brasil inteiro “Quem quer comer o bacalhau da Ivete?” com a malícia correta que sugeria muito mais o órgão sexual da baiana do que o peixe. Terezinhaaaaaaaaaaaaa!    

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos "Insânia" (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado "Alana e a Lâmpada Mágica". Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.