O Festival dos Festivais

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Jair Rodrigues, Nara Leão e Chico Buarque de Hollanda durante o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de 1966. "Disparada", com Jair Rodrigues, e a "Banda", com Nara Leão e Chico, empataram em primeiro lugar. (São Paulo, SP, 10.10.1966. Foto: Folhapress) (Foto: Folhapress)
Jair Rodrigues, Nara Leão e Chico Buarque de Hollanda durante o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de 1966. “Disparada”, com Jair Rodrigues, e a “Banda”, com Nara Leão e Chico, empataram em primeiro lugar. 

Reza a lenda que a sigla MPB (Música Popular Brasileira) foi cunhada no Primeiro Festival Nacional de Música Popular Brasileira com a vitória de “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, defendida por Elis Regina, que à época atendia pelo apelido pouco carinhoso de “Eliscóptero”, por causa de sua mania exagerada de agitar os braços em torno do corpo. Parecia que a Pimentinha estava sempre levantando vôo. O evento, que ocorreu em junho de 1966, teve três fases: auditório da TV Excelsior em Guarujá, SP; Hotel Quitandinha, Petrópolis, RJ e auditório da TV Excelsior no Rio de Janeiro.

Verdade? Mentira? Pouco importa: o fato é que a sigla pegou. Mesmo hoje, nesses tempos miseráveis em que a MPB está em coma na UTI faz tempo, vez por outra algum maluco saudosista ou um crítico metido a besta de algum jornal esquecido insiste em desenterrar as três fatídicas consoantes, que tanto bem fizeram aos nossos ouvidos nos áureos tempos em que música não se traduzia em ir abaixando a bunda até o chão ou em ganidos lamuriosos de duplas sem talento de alguma deformação musical que alguém batizou de “sertanejo universitário”, apelido besta que enterrou de vez a musicalidade e o bom gosto da assim chamada MPB de antanho.

Então, vou lhes contar uma historinha que nunca mais se repetirá: quem viu viu, quem não que chupe os dedos: em pleno 1967, há (quase) 50 anos (21 de outubro), com o país sob o jugo militar (vulga ditadura, os milicos censurando a torto e a direito) a TV Record de São Paulo (sempre São Paulo) promoveu no Teatro Paramount seu mais famoso festival de MPB que mudou os rumos de nossa música popular pelos anos seguintes. No ano anterior, o país já havia assistido (e aplaudido) a vitória de “A Banda”, marchinha de Chico Buarque defendida por Nara Leão que tomou o Brasil de assalto e que empatou na última hora com a vigorosa toada caipira “Disparada”, de Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues. Filhas de vertentes completamente distintas, as duas poderosas canções resistem até hoje no imaginário popular e tem lugar garantido no panteão das grandes canções de nossa MPB.

Mas muitas coisas aconteceram no festival do ano seguinte, que passou à História como um dos mais controvertidos eventos musicais jamais acontecidos: consagrou e lançou para o mundo a Tropicália, movimento musical que rende frutos até hoje. Além disso, introduziu de vez, para desespero dos puristas, as guitarras elétricas em nossa música popular: Gilberto Gil cantou “Domingo no Parque” – segundo lugar – junto com os Mutantes, grupo de rock dos irmãos Baptista com Rita Lee. E Caetano Veloso ponteou sua colorida “Alegria, Alegria” – quarto lugar – junto com os Beat Boys, banda de rock argentina. Mesmo com tudo isso, o tradicional acabou triunfando: Chico Buarque emplacou sua maravilhosa “Roda Viva” em terceiro lugar, cantando junto com o MPB4. E “Ponteio” de Edu Lobo & Capinam, defendido pelo primeiro mais Marilia Medalha e Quarteto Novo ficou em primeiro, mesmo com a plateia presente urrando pelas outras três classificadas logo abaixo. Mas “ … o sol nas bancas de revistas…” como cantou Caetano em Alegria parece que não iluminou os obscuros cantos do júri, que optou por um resultado bem mais acadêmico. Passado tanto tempo, fica claro agora que os dementes de farda verde-oliva que mandavam no Brasil jamais aceitariam os baianos, com sua parafernália colorida e barulhenta e pouco se lixando para a tradicional Família Brasileira em primeiro lugar.

Ah, mas aconteceu muito mais coisa divertida no festival da Record de 1968: a apresentadora Hebe Camargo foi vaiada do começo ao fim com sua interpretação da chorosa “Volta Amanhã”, abandonando o palco aos prantos; Sérgio Ricardo, insatisfeito com as vaias do público para o seu “Beto Bom de Bola” quebrou o violão em pleno palco e o atirou na plateia ensandecida; Roberto Carlos, direto da Jovem Guarda para as fileiras da MPB foi bastante vaiado com sua “Maria, Carnaval e Cinza”, mas acabou com um honroso quarto lugar, Elis Regina consagrou-se como Melhor Intérprete com “O Cantador”, de Dori Caymmi e Nelson Motta; Nara Leão puxou Melhor Letra para a sensível “A Estrada e o Violeiro”, de Sidney Miller.                    

Os Mutantes saíram consagrados do festival e um ano mais tarde a Tropicália se vingaria das injustas colocações de seus representantes em 68. Gil e Caetano deram para o trio de rock gravar a ótima “Panis et Circenses”, que fala justamente do comodismo da classe média e seu horror em contemplar o novo ou o diferente. É, ao que tudo indica, as tais “pessoas na sala de jantar” de Gil e Veloso ainda estão por aí aos bandos, vigiando e remoendo o fel de suas vidinhas miseráveis.   

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Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos "Insânia" (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado "Alana e a Lâmpada Mágica". Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.