SUICIDAS

Por
Atualizado em
Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Causou comoção na semana passada, o suicídio de um jovem conhecido por todos e que trabalhava numa firma importante da cidade. Os motivos para o ato, como é habitual em casos desse tipo, foram-se com ele para a eternidade.

Suicídio entre os jovens parece ser uma coisa endêmica em Piraju. Não obstante o sol radiante que brilha durante a maior parte do ano, o céu azul, o ar revigorante e puro e o rio confortador e aprazível volta e meia um deles mete uma bala na cabeça, pula da ponte ou se enforca. Aqui, ao que tudo indica, a bela moldura ecológica não basta para que mentes angustiadas procurem pôr fim aos seus suplícios das mais variadas maneiras e rapidinho.

Lembro-me bem há alguns anos quando os dois colegas gays escalaram o alambrado da ponte e se jogaram nas águas revoltas da cascata da barragem, no lado de baixo. Um amigo, que à época trabalhava na usina, aquela caixa feia de cimento na ponta da ponte, jura que viu, de uma janela, a mãozinha de um deles, agitada, emergir das águas turbulentas, quando o corpo submerso passou por ali, ainda com vida mas em agonia. Mais tarde especulou-se que um dos suicidas gays seria portador do vírus da AIDS e o outro seria rejeitado pela família, que não aceitava sua opção sexual.

Outros mais pularam da ponte, desde então. A prefeitura já havia reforçado o alambrado da ponte, aumentando sua altura, mas para os suicidas, dispostos a acabar com a vida, obstáculos como esse são fichinha. E a ponte é o de menos. A decantada garganta, com suas pedras e corredeiras rápidas também contribui para a cota de suicídios na cidade. Por lá, de qualquer lugar que se pule, é morte certa nas águas do rio violento. Pois já não se morreu (sem ser suicídio) naquele remanso sossegado, tipo de uma prainha, onde o povo vai curtir e fazer churrasco e beber umas ao lado do Hotel Beira Rio?

O suicida mais famoso da História é Judas Iscariotes, que enforcou-se numa árvore no Ano Zero do Cristianismo para purgar-se do ônus de haver traído Jesus Cristo para os fariseus do templo e os romanos (que tem menos culpa no caso). Hitler não deixou barato: meteu uma bala na cabeça em seu bunker em Berlim em 30 de abril de 1945, antes que os russos entrassem na cidade. Antes, já havia matado sua cadela de estimação. Sua amante, Eva Braun, seguiu o ditador ingerindo uma colherada de arsênico. Todo o Estado-Maior alemão seguiu o exemplo de seu chefe e foi para o inferno pelas próprias mãos: entre eles Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda do Reich e Herman Göring, fundador da temida Gestapo, Comandante em Chefe da Luftwaffe – a força aérea dos alemães – e um dos arquitetos do Holocausto. Göring ainda levou junto a esposa, nazista fanática e os seis filhos do casal, envenenados com cápsulas de cianureto.

Assim como a Vida segue seu curso imutável, os suicídios continuarão a acontecer, sejam eles aqui em Piraju ou no resto do mundo. A igreja católica, com seu ranço habitual, condena, sem jamais admitir que a Criação em si é algo que não deu muito certo e que a historinha de homens criados à semelhança “de deuses” é pura invencionice para boi dormir. Homens e mulheres são loucos e continuarão se matando quando lhes der na telha, pulando de lugares altos, cortando o pescoço, estourando os miolos ou se atirando em rios. Afinal, se não pudermos dispor de nossos corpos da maneira que nos aprouver, dando fim a eles ou não, vamos dispor de que?

Segue abaixo uma listinha de alguns suicidas famosos. Os que deixaram bilhetes suicidas ou aqueles que não deram explicações estão em boa companhia: o pintor Van Gogh (tiro no peito), o compositor russo Tchaikovsky, o inventor do avião Alberto Santos-Dumont (enforcou-se com a gravata), a escritora Virginia Woolf (afogada), o escritor Ernest Hemingway (apoiou o cano do rifle no queixo e mandou bala), o presidente brasileiro Getúlio Vargas (deu um tiro no peito), o ator Walmor Chagas (tiro na cabeça), os cantores Chris Cornell (Soundgarden e Audioslave) e Chester Bennington (Linkin Park) enforcaram-se, Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, estourou os miolos.         

(NOTA: em casos raros, suicidas sobrevivem aos seus atos. É uma corda que se rompe aqui, uma bala que não sai ali ou uma faca sem corte que não corta. Aqui mesmo, em Piraju, há certo tempo, um suicida que havia se atirado no rio foi salvo por um herói anônimo desconhecido que se jogou logo atrás. Eu não vi, mas testemunhas que estavam no local juram que o suicida fracassado, ao ser retirado pingando do rio portava a camiseta “EU AMO PIRAJU”.                 

Espalhe essa notícia

50 visualizações
Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos "Insânia" (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado "Alana e a Lâmpada Mágica". Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.