SUPER – HOMEM

Por
Atualizado em
Foto Ilustrativa
Foto Ilustrativa

Na reta final da novela das 9, ficamos sabendo que Ivan (ex-Ivana), vai se descobrir grávida, voltar para a casa da megera Joyce para depois ser espancada na rua por homofóbicos e perder o bebê. Antes assim. Ainda bem que a autora da trama, a novelista Gloria Perez, nos poupou o horror de ver alguém que foi mulher (feia) virou moleque (desengonçado) carregando barrigona na frente. O Inferno também tem seus limites, como costumava dizer Sade.

Nunca me identifiquei com o drama de Ivana-Ivan, que sempre achei meio forçado. Talvez por carregar um bom par de anos no costado e ter vivido a vida inteira nesse mundinho gay, tão fútil e desprovido de sentido ou valores quanto sua contrapartida, o mundinho hétero. O cantor e compositor Gilbert Gil, em “Super – Homem: A Canção” reclamava da mesma coisa: o personagem da música – com certeza o próprio Gil – um dia teria vivido a ilusão “de que ser homem bastaria” e que o Mundo Masculino “tudo lhe daria”, do que ele “quisesse ser”. Errou feio, porque no caso da serena canção, a “porção mulher” do dito cujo acaba falando mais alto, quando ele então invoca a proteção do Super-Homem, para tentar equilibrar esses dois mundos eternamente conflitantes.   

Mas, continuando, com toda a minha vivência gay, nunca dei de cara com um trans, que antigamente eram chamados por outros nomes, uma longa lista que todos devem conhecer desde a mais tenra infância. Certa vez, na Chácara do Vicente, acho que tinha uma (trans). Mas ninguém falava trans naquela época, falavam “bicha operada”. Vicente foi famoso pelas recepções e festas que costumava dar em sua bela propriedade rural, às vezes à beira da piscina, onde reunia uma corte que ia lá confraternizar e lhe render homenagens, feito um senhor feudal e seus vassalos pobres. Engraçado, nunca mais fui convidado para essas tais festas do Vicente: devo ter entrado em sua “lista negra” ou simplesmente ter sido substituído por caras novas ou amizades mais interessantes. Lá, feito uma Versalhes decadente, a corte sempre se renovava e de tempos em tempos alguém sofria as sanções punitivas da falta de convites. E sumia da balada.

Enfim, voltando à bicha operada, não cheguei a vê-la e nem entrar em contato. Estava bem reclusa, e segundo burburinhos da corte, meio fora da casinha: não conseguia se enturmar e estava sofrendo muito com isso: as mulheres não queriam nem saber da nova amiga com genitália fake e os viados corriam dela, decerto com medo de pegar alguma maldição hétero e virarem mulheres! Nunca mais ouvi falar dela e sua operação irreversível, que incluiu muito mais que cortar os peitos fora, feito a infeliz Ivana (Ivan).

Outro dia Wandysa me ligou logo cedo para dizer que “acho que acordara trans”. Estão vendo o que as novelas podem fazer às mentes fracas? Com 73 anos, se a bicha agora é trans eu sou Celine Dion cantando o tema do Titanic. Dei-lhe uma esculachada e recomendei Prozac ou Rivotril, em doses bem altas. E que arrumasse um novinho para namorar e ouvir suas mágoas. Mesmo assim, Wandysa insistia: disse que se olhava no espelho e que não “estava nem um pouco satisfeita dentro daquele corpo”. Opinei que talvez fosse por causa de sua barriga avantajada ou dos 15 quilos a mais que ganhou mamando as cervas da velhice. Diante disso, a bicha, ofendidíssima, desligou na minha cara, espero que definitivamente curada da “transmania”.

Numa novela feita só de mulheres fortes, os homens da trama são todos uns bananas: Eugênio beira o retardo mental, Eurico é um pitbull retrógrado, Junqueira um encostado, Dantas um pau-mandado da amante, Ruy um playboyzinho mimado e perigoso, Zeca um caipira atrasado que conversa com a santa, Caio um mal resolvido que não conta seus podres e Rubinho um biscateiro que vive dando nó na mulher enganada. Diante desse lamentável quadro de personalidades masculinas brochantes, destrinchadas com maestria por Perez, destaque apenas para os dois únicos Super-Homens da trama (na minha opinião): o garoto Yuri, que só se comunica pelo celular e vive fazendo cosplay e o traficante Sabiá, esplendorosamente emoldurado por dreadlocks sensuais, correntes de ouro e fuzis. Aqui ninguém é trans nada, se é que eu posso passar a minha visão.

Espalhe essa notícia

19 visualizações
Carlinhos Barreiros

O autor é escritor, jornalista, crítico de cinema e literatura. Já lançou o livro de contos "Insânia" (ed-independente, esgotado) e está revisando, no momento, seu segundo livro, também de contos, intitulado "Alana e a Lâmpada Mágica". Atualmente, mora em Piraju, ao lado de seu gato preto, Félix.