C A T S

Carlinhos Barreiros Carlinhos Barreiros
Imagem ilustrativa

Outro dia, descendo com o Amarildo a rua Vicente Laino (até a 13 de maio, debaixo de chuva), sob um guarda-chuva onde cabia bem nós dois, nos deparamos, num terraço qualquer dando para a rua, com uma gatinha nova mestiça de angorá, toda faceira. Quando nos viu, meio ensopados, foi logo soltando um longo e interrogativo “miau”, meio enrolado, como questionando o que dois bocós estavam fazendo na rua num dia tão inadequado.

Foi o que bastou. Paramos e a gata pulou no chão. A erguemos para o colo e lá ela se aninhou, fazendo graça e amassando pão com as patinhas grossas. Ficamos uns minutos com a gata nos braços, brincando, ela ronronando de contente. É óbvio que queria seguir com a gente. Mas ... a pusemos novamente no chão e adivinhem o que? A danadinha começou a trotar atrás de nós, nos acompanhando, com sua longa e maravilhosa cauda cinza erguida, salpicada de chuva. Com medo de que nos acompanhasse até a rodoviária (o que estava parecendo que ela ia fazer), batemos o pé no chão, fingindo uma braveza que nem eu nem o amigo tínhamos.

A gatinha pareceu entender (não que aparentasse qualquer sinal de medo da nossa machice forçada) e pulou de novo para o parapeito do terraço, onde se acomodou, linda, a observar, indiferente como todos os gatos do mundo a chuva que teimava em cair. Nos despedimos dela com afagos em sua cabecinha macia e ela ronronou de volta, agradecida pela atenção. Mas já tinha nos esquecido, ao que parece. Voltara àquele mundo particular ao qual só os gatos tem acesso.

Sempre amei os gatos. Convivi com dezenas deles (as) ao longo de minha vida. Me lembro de todos, com nitidez, até hoje. A primeira, na casa da rua Joaquim Teotônio de Araújo foi a Chica, uma gata branca magricela e vira-lata que nem nossa era: era da vizinha do muro de trás, a dna. Aurora, esposa do sr. Silverinho Carrara. Chica acostumou-se a comer na minha casa e começou a dar crias por lá também, povoando o quintal com seus filhotes sem estirpe. Me lembro que ela, inteirinha branca, tinha as pontinhas das orelhas viradas para dentro e os olhos bem azuis, o que lhe concedia uma certa característica dos linces, já que os bichos são todos da mesma família.

Muito tempo depois da Chica foi a vez da Negrinha mudar-se de mala e cuia; comia, passava a tarde dormindo e de noite sumia, como é da natureza felina. Às vezes era avistada no depósito de mantimentos do antigo supermercado Maroscar, para onde decerto se dirigia à cata dos inúmeros insetos ou roedores que locais assim costumam atrair.     

Quando nos mudamos para a Pio Malagodi, no início dos anos 80, levei comigo, na cabine do caminhão de mudança, a Gata (já meio velha e a que mais conviveu comigo); depois voltei para buscar a Pintada, gatinha angorá peluda de três cores que morava no quintal da casa que estávamos deixando junto com três irmãos e o pai, um gatão super manso, que tomava conta da ninhada depois que a mãe saiu uma noite e nunca mais voltou. Por mim, eu teria levado a família inteira, mas meu pai não quis. Tanto a Gata como a Pintada foram para a nova residência embrulhadas em seus paninhos e cobertores, para levarem junto consigo o cheiro conhecido e assim não estranharem muito o novo local de moradia.           

Quando eu tinha meu inesquecível Negão - o gato perfeito - às vezes ele olhava além de mim, ou através de mim e enxergava coisas que eu não via, decerto oriundas de algum  universo paralelo ou outro mundo qualquer. Negão olhava e olhava e às vezes sussurrava coisas baixinho na língua dos gatos, enquanto seus enormes olhos verdes inteligentes examinavam e avaliavam aquilo que aos humanos é negado.

Na estranha simbiose entre gato e  dono, os primeiros agem como para-choques de tudo que é ruim. Absorvem a maldade do Mundo antes que ela nos atinja e depois se livram da coisa com uma elegante lambida ou um delicioso espirro. Assim são os gatos, aos quais agradeço todo dia por existirem neste mundo de horrores. 

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