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Rádio Ga Ga

Carlinhos Barreiros
Carlinhos Barreiros Carlinhos Barreiros
Rádios ainda são fabricados?
Rádios ainda são fabricados?

Todo mundo hoje em dia (inclusive eu) só ouve música no celular. Ou no computador. O que é lamentável. O som do celular só fica bom com o fone de ouvido acoplado e o do computador com um bom par de caixinhas acústicas e outra de graves. Senão corremos todo o risco de ficarmos reféns daquele sonzinho mixuruca que parece saído do fundo de uma lata de massa de tomate. Tanta conquista na área do áudio visual para voltarmos no tempo, em termos de som puro? Frustrante, no mínimo.

Sou do tempo do bom e velho rádio de válvulas. Minha mãe lavava roupa no tanque com o rádio ligado na cozinha, um velho Zenith preto, pequeno. E lá ia dna. Yvonne, entre camisas, fronhas e toalhas ensaboadas desfiando os sucessos da antiga Rádio Nacional do Rio de Janeiro, junto com o Zenith ligado no máximo. Esse “máximo” na verdade não era nada, o som que saía era bem baixo, mas até que “Conceição”, “Feitiço da Vila”, “Babalu” e outros sucessos da época saíam bem agradáveis, com a voz afinada da mamma dando um reforço na altura. O Zenith durou um tempão e muita música bacana saiu de seu alto-falante pequeno. Era considerado parte da família, pois até as novelas da época eram transmitidas via-rádio. Há muito tempo não vejo anúncios da venda de rádios elétricos ou a pilha. Será que não são mais fabricados?     

Gravadas na minha memória a ferro e a fogo estão as lembranças das rádios-vitrolas (móveis que possuíam rádios possantes e toca-discos, os antigos LPs de vinil) da casa do meu avô João Barreiros e a do Issa Maluly, ambas localizadas nas salas de casarões da praça Ataliba Leonel. O senhor Issa Maluly, toda noite, lá pelas dezenove horas, sintonizava as emissoras de sua terra natal, a Síria, em ondas longas. E não é que pegava direitinho? A gente, tudo criançada, amigos dos filhos da casa, ao redor do aparelho, escutava embasbacada os sons do deserto que chegavam cristalinamente, remetendo a oásis com tamareiras, camelos e odaliscas, sons que saiam diretamente dos potentes alto falantes da possante vitrola do velho Maluly. Não entendíamos nada do que era cantado, mas que os sons eram diferentes e envolventes não resta dúvida.

Na Phillips dos Maluly e na GE do meu avô descobri as grandes canções e os grandes intérpretes daquela geração. Na casa do meu avô, sentava no chão ao lado da vitrola e ficava horas escutando os populares programas radiofônicos da época: “Telefone Pedindo Bis”, “O Diabo Disse Não”, “Programa Barros de Alencar” e todas as paradas de sucesso que conseguisse encontrar. O João Barreiros (e nem o Issa Maluly, por sinal) ligavam que as crianças manuseassem seus caros aparelhos de som. Tinham prazer em dividir e ver a garotada cantando junto com a caixa de madeira.

O diretor de cinema americano Woody Allen homenageou o aparelho idolatrado por muitas gerações no filme “Radio Days”, de 1987, um hino de amor ao rádio e seus devotados ouvintes. A banda inglesa de rock Queen, antecipando a homenagem, compôs o hit “Radio Ga Ga” em 1983, na qual lamenta por um mundo onde o rádio encontra-se ausente, e, por consequência imediata, pior.

Não sei se o mundo ficou melhor ou pior sem o rádio. O aparelho faz parte de um passado coletivo onde tudo tinha o seu charme remoto e acompanhava a vida das pessoas pois, obediente como um fiel robô só precisava de um “clic” para funcionar. Um bom companheiro que distraia e divertia, transformando a música - à qual em certa época apenas uma elite privilegiada tinha acesso - em felicidade coletiva e geral.