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Homenagem ao Centenário do itaporanguense Leôncio Ferreira

Redação
Redação Eventos
Vô Leôncio com os filhos Carlos, Valter, Rosângela e Rosinei

 

Querido Vô Leôncio...

Por Sabrina Valente

Completar um século de vida é pertencer a História do mundo de uma forma mais profunda, autêntica e rara. São poucas as pessoas que podem se gabar de ter uma vida tão rica de histórias para contar.

Nossa! 100 anos! São tantas histórias, tantas conquistas, tantas batalhas vencidas, que passaríamos mais uma vida inteira para contar um pouquinho do que o Vô Leôncio viveu e nos contou. É com muito carinho que homenageamos esse ícone da Família Ferreira.

Leôncio Alves Ferreira, o querido “seu Leôncio”.

Aos 8 dias do mês de novembro do longínquo ano de 1918 seus pais Francisco Alves Ferreira, o França, e Inácia Corrêa, celebravam o nascimento do nosso querido Vô Leôncio, exatamente aqui, na cidade de Itaporanga, na espaçosa casa da grande família Ferreira de 11 filhos: Ataliba, Nenê, Maria, Zica, Rosinha, Catarino, Otávio, Dionísia, o vô Leôncio, Paulo e Teresinha.

Família grande, infância agitada! Vô Leôncio, como toda criança, gostava de brincar na rua e no extenso quintal de sua casa com cavalinho de pau, peteca de palha e bolinha de gude. Seu pai, que tinha padaria e um sítio, fazia todos ajudarem na lida dos negócios da família, como vender os pães feitos com muito esmero pela sua mãe Inácia, que cozinha e costurava como ninguém.

Aos 13 anos, o destemido Leôncio se aventurou na histórica Revolução Constitucionalista de 32. E foi escavando trincheiras, bem aqui, no bairro Lava Pés, em troca de uma bicicleta, que nosso Vô Leôncio entrou pra História ajudando os jovens soldados paulistas. Quantas lembranças vivas sobre esse momento histórico de nosso país há em sua memória. Ele conta com detalhes, como se fosse hoje, o que aconteceu naqueles 3 meses de combate. O vô Leôncio é mais que um homem centenário, ele é a História viva do Brasil.

Se não bastasse enfrentar as trincheiras, ele, também, sempre encarou de frente as responsabilidades do trabalho, economizando o que recebia para poder comprar o que queria. E foi na rotina do trabalho, indo e vindo para ajudar seu pai na roça e nos negócios, entre Itaporanga e Riversul, que conheceu a Carola, menina direita, de família conhecida, de uma beleza única que o encantou. Ali nascia uma linda história de amor. E que história!

Vô Leôncio e Vó Carola casaram-se ainda muito jovens, ele com 16 anos e ela com 15, mas nem por isso ele deixou de lado suas responsabilidades que agora também se estendia a família.

Enquanto a Vó cuidava da casa, o Vô aprendeu a profissão de sapateiro e se tornou um homem renomado em Riversul, cidade de origem da vó Carola, onde foram morar logo depois do casamento. Lá tiveram os primeiros 5 filhos: Carlos, Valter, Luiz, Neno e Regina, e era a vó quem cuidava com muito carinho de todos. Costureira de mão cheia, Vó Carola fazia questão de confeccionar as roupas da família, enquanto o Vô confeccionava os sapatos. Um casal em plena sintonia!

Como bom cidadão, foi nomeado delegado de Riversul pelo governador da época para manter a ordem e a segurança da pacata cidadezinha. Devido a circunstâncias que este cargo lhe impôs, o Vô Leôncio e sua família voltaram a morar em Itaporanga onde tiveram suas duas últimas filhas, Rosângela e Rosinei. E assim seguia a vida, entre cuidar da família e trabalhar como sapateiro, conhecido por toda região como o melhor em sua profissão!

O vô Leôncio e a vó Carola foram exemplos de pessoas de bem, trabalhadoras e pais maravilhosos que sempre uniram a família com muito amor e carinho. Eles construíram uma linda família de 7 filhos, 15 netos e 18 bisnetos.

O Vô Leôncio foi e fez de tudo ao longo desses seus 100 anos de existência.... Quem não se lembra do implacável pescador que adorava pegar uns peixões pros lados do Pantanal Mato-grossense? E quando ninguém o levava pra aquelas bandas, ele se aventurava nas águas dos grandes açudes e rios aqui por perto mesmo. E também era um excelente nadador, requisitado para encontrar as pessoas perdidas no fundo das águas.

Sem falar das caçadas a tatus, pacas e cobras, além de outros bichos exóticos que ele preparava e fazia-nos experimentar! O senhor nos surpreendia a cada dia, Vô Leôncio!

E foi entre uma pescaria e outra que ele fez tantos amigos e viveu tantas histórias que sempre fez questão de contar com toda empolgação e pitadas de exageros que somente os bons pescadores sabem fazer.

Nós, netos, nos divertíamos quando ele nos levava para dormir no sítio só para nos assombrar ao redor de uma fogueira com seus contos sobre Saci-Pererê e Lobisomem, fazendo-nos acreditar que eles realmente existiam! Era assustador e divertido passar as noites com o Vô!

E as lindas parreiras que o Vô cultivava na casa de todos da família?! Suas mãos divinas cuidavam com tanto carinho das Parreiras que no final do ano a uva docinha era certa nas ceias de Natal e Ano Novo.

E os versos?! Quantas rimas e cantigas sua voz firme e imponente alegravam nossos ouvidos e que até hoje nos arranca risos e diversão. Sem falar da gaita, sua companheira de todas as horas, onde chegava a tirava do bolso e nos agraciava com uma bela cantiga.

Falar do vô Leôncio não é só falar de um bom pai, um bom vô e bisavô, um homem trabalhador, sapateiro, pescador, caçador, contador de causos e versos, é falar também de um exímio dançarino que embalava os bailes de antigamente com sua leveza na condução de seu par. E quem diria! É assim até hoje!

Tudo o que o Vô Leôncio viveu e vive nos faz crer que 100 anos é muito somente para quem não sabe viver. E como ele soube e sabe viver!

Essa longevidade deve ser fruto das inúmeras picadas de abelhas que levou ao longo desses 100 anos, quando saia em meio à mata atrás de mel silvestre. Nunca nos esquecemos de quando ele dizia que as picadas faziam bem para o coração, e hoje a medicina comprova sua sabedoria nata.

Vô, hoje o senhor completa 100 anos de uma existência feliz e muito bem vivida e aproveitada! Desejamos que nunca lhe falte o amor e a alegria de viver ao lado da família e dos amigos que tanto o amam, e que sua vida nos inspire a ser sempre uma família unida pelo amor e carinho que permeou sua trajetória.

Feliz aniversário vô Leôncio! Deus abençoe o senhor com muita saúde e vitalidade para que possamos comemorar tantos quantos anos Deus o permita celebrar! Te amamos vô! Deus abençoe! Parabéns pelo seu dia!

Vô Leôncio com os netos e bisnetos